Psicologia Social e cornitude: uma simbiose

Deitado sobre o carrasco da minha coluna, o desconforto gerado por aquele sofá duro e azul despertou em mim a necessidade de ficar melhor acomodado. Resolvi então assistir a um show de Fagner, há muito tempo na gaveta esquecido. Ele mal começou e concomitantemente também a interpretação da subjetividade alheia. Lembrei-me então de Vivi Gomes, cujo trabalho atualmente resume-se a este tipo de “viagem”: leitura das entrelinhas textuais.

Dentre tantas músicas que expressam a subjetividade e o sofrimento do povo nordestino, uma de autoria desse maravilhoso poeta me chamou atenção: “deslizes”. Confesso que estava a ponto de ter um orgasmo psicoemocional quando escutei o trecho que diz: “é pelos outros que eu sei quem você é”. Automaticamente fui remetido ao que Yolanda Forghieri denomina de vivência cotidiana imediata, ou seja, a vida como acontece no dia-a-dia, com pouca ou nenhuma intervenção da razão. Eu estava imerso na situação, talvez tenha ocorrido o que chamam de empatia.

As ondas sonoras vibravam meus tímpanos, a transdução dos estímulos precedia a análise do material colhido. Uma outra figura interligada com a última surgiu, era Edmund Husserl. Este filósofo dizia que toda vivência é a vivência de um ser no mundo; objeto responsável pelos pilares da dialética e da personalidade. Então fui mais além, utilizei minha rede semântica para culminar na consciência a Psicologia Social, disciplina lecionada pela mulher mais filosófica e interacionista da faculdade; ela forneceu o material necessário para construir essa crônica.

De acordo com o criador de Sherlock Holmes, o homem sozinho é peça de um quebra-cabeças insolúvel, mas no contexto social ele se define, torna-se previsível. Há um processo cognitivo subjacente à interação que, obviamente só acontece mediante presença de dois ou mais seres humanos. Por dedução aristotélica, o eu lírico só foi elevado (ou rebaixado, depende do ponto de vista) ao status de corno mediante comportamento (Skinner define como qualquer ação do organismo no meio) da sua parceira e internalização das informações transitadas no plano interpessoal (Vygotsky).

O que está fora passa dentro, o indivíduo passa então a se regular mediante interpretação de tais informações que carregam consigo o simbólico, função principal da linguagem. Dois aspectos importantes norteiam o ser: a capacidade de tomar decisões como um sujeito ativo e a auto-imagem. Não há outra maneira para coletar informações senão através dos fenômenos manifestados pelos seres, no nosso caso, o eu lírico da canção de Fagner.

Trata-se de um homem que não sabe por que insiste tanto em querer uma mulher que pinta e borda com sua pessoa; se ao lado dela ele sabe tão pouco, é imprescindível recorrer ao social para obter informações sobre a parceira. Se estivesse vivo, Freud certamente vasculharia o inconsciente desse e de tantos outros cornos espalhados mundo afora, analisando criticamente a cultura e valendo-se do saber psicanalítico no ato de exumar as causas de tal comportamento. É preciso abrir o baú do Raul e encarar na cara de pau (com óleo de peroba) o objeto temido, ao invés de simplesmente recalcá-lo.

Ele sabe de tudo, com quem ela anda e aonde ela vai, mas disfarça seu ciúmes mesmo assim; pois aprendeu (por condicionamento simples ou instrumental, ensaio e erro, imitação, discernimento ou insight e, quem sabe até raciocínio? – será que vale a pena?) que seu o silêncio vale mais e crê que dessa maneira trá-la-á de volta. Como prêmio recebe seu abraço (reforço positivo), subornando um desejo tão antigo (a disciplina de Ética e RH condenaria ao mármore do inferno; o indivíduo está, aos poucos, enterrando sua identidade), fecha os olhos para todos os seus passos (o pior cego é aquele que não quer ver), se engana e, somente mediante tal condição são amigos.

Iniciei o texto deitado temporariamente em berço nada esplêndido, com um notebook no colo, sob a escuridão e a chuva do céu profundo. “Fulguras, ó Brasil, florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo!”, mas que sol? É só água e mormaço nessa cidade, as galerias não dão vencimento. Como todo castigo para corno é pouco (it’s not enough, it’s not enough), ainda resta somar as inúmeras latinhas de cerveja e garrafas PET à falta de educação do povo, que paga – e caro (com cartão hiper, em um trilhão de vezes) – pelos móveis destruídos quando a água invade suas casas.

Se continuar assim, a cidade do Recife será promovida de Veneza brasileira para aquário cearense; Fagner poderá então – através da esquizofrenia do eu lírico – tornar-se um peixe e nesse turvo aquário mergulhar, fazer borbulhas de amor para encantar e passar a noite em claro dentro de quantas piriguetes desejar. Estando o homem sujeito ao tempo e ao espaço, aproveito para lançar a idéia de que pretendo comprar um u-boat segunda mão, está na hora de trocar de “carro”.

Está incompleto, a mente cansou e falta inspiração… quando tomar uma eu termino!

Uma resposta para “Psicologia Social e cornitude: uma simbiose”

  1. Jediane Disse:

    Muito, muito, muito bom, Manoel…

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